Duda pode eleger Flávio
Tivemos mudanças importantes na equipe da campanha de Flávio Bolsonaro
Duda Lima costuma dizer que “marqueteiro nenhum ganha eleição”. Seu colega de nome e ofício, o falecido e também Duda, só que Mendonça, pensava de forma parecida.
O homem que ajudou Lula a vencer depois de três derrotas presidenciais dizia que o marketing era apenas uma ferramenta de apoio.
Quando lhe cobravam milagres de um publicitário, Duda Mendonça respondia de maneira ainda mais direta: “Não dá para fazer mágica”.
Pois é. Os dois Dudas estão certos.
Aliás, Duda Mendonça não inventou Lula. Apenas encontrou a maneira certa de apresentar ao país um Lula que o medo, a rejeição e as campanhas anteriores impediam parte do eleitorado de enxergar. Mudou a percepção sobre o petista.
É justamente esse o desafio que agora está nas mãos de Duda Lima com Flávio Bolsonaro.
Publicitário nenhum no mundo fabrica o carisma popular de Jair, Lula, Cleitinho ou Renan Santos.
Também não inventa voto do nada. Goste ou não dos caras, são campeões de votos e de defensores.
Aliás, se não apaga com uma peça bonita todas as cagadas que um candidato fez durante a vida.
Mas, porém, contudo, todavia... pode identificar virtudes que outros não enxergam.
E, sim, pode até controlar certos defeitos e construir uma mensagem capaz de reduzir um tiquim da rejeição.
Em uma eleição separada por um ou dois pontos, isso pode ser tudo. Pode ser a diferença necessária. O arremesso no fim do cronômetro. A foto da chegada.
DUDA LIMA ACABA DE ASSUMIR A CAMPANHA que mais precisava dessa diferença.
A pior preparação que já vi
Há poucos dias, escrevi na Crusoé que a de Flávio Bolsonaro foi a pior preparação para uma campanha presidencial que já vi. Não retiro uma linha.
Foram meses de improviso, crises mal administradas, trocas no comando, isolamento partidário, dificuldade para encontrar um vice e uma espantosa capacidade de transformar qualquer casca de banana em compromisso oficial do candidato. Rsss.
Poucas candidaturas trabalharam tanto contra si mesmas. Todos concordam sobre isso.
Mesmo assim, Flávio sobreviveu.
E taí: apenas QUATRO PONTOS ATRÁS de Lula em diversas pesquisas.
E aqui começa a parte que deveria tirar o sono do PT.
Os institutos de pesquisa divergem sobre o tamanho da distância, mas concordam no essencial: a eleição continua aberta e a distância voltou a diminuir.
É incrível. Lula está no poder, dispõe da máquina, é universalmente conhecido e tem uma biografia eleitoral de quase meio século. Ainda assim, não consegue abrir uma vantagem minimamente confortável sobre o herdeiro de Jair Bolsonaro, depois de uma largada de campanha desorganizada.
E aqui eu quero que Flávio tire o cavalinho da chuva se achar que isso é mérito dele. Essa resiliência tem nome, sobrenome, uniforme e aura. E não é Bolsonaro. É ANTIPETISMO.
Flávio tem a sorte de ser, na cabeça da maioria dos eleitores que não gostam de Lula, o cara que pode vencer Lula.
Flávio é mais do que herdeiro de Jair.
É herdeiro do antilulismo.
Essa é a oportunidade entregue a Duda.
Bom, Flávio possui passivos próprios, evidentemente.
Como todos imaginam, vem muita coisa por aí. Dá para supor que o repertório ainda não tenha acabado.
Mas, para milhões de brasileiros, ele ainda é o malvado favorito para vencer Lula. E essa turma não está nem aí. Gosta dele por isso.
Aliás, entre os que não gostam, vale uma observação.
Muita gente não gosta por culpa do próprio Flávio. Pelas crises próprias. Pela falta de credibilidade.
Mas há uma turma grande que não gosta dele simplesmente por ser filho de Bolsonaro. Por tanto, vai votar em outro no primeiro turno.
Ou seja, ser um Bolsonaro traz ônus e bônus. Grande parte da rejeição também veio por HERANÇA.
São excessos e todas as memórias do governo anterior e das atitudes de Jair.
Duda conhece esse material melhor do que quase qualquer profissional disponível. Esteve dentro da campanha de Jair Bolsonaro em 2022, comandando a propaganda de rádio e televisão.
Conhece o PL, Valdemar Costa Neto, o bolsonarismo, suas virtudes e, principalmente, seus mecanismos de autossabotagem.
Com Jair era uma coisa. Com Flávio, é outra.
Jair Bolsonaro é um comunicador intuitivo e quase impossível de comandar. Produzia fatos toda hora e mobilizava seguidores sem precisar de roteiro.
Também atropelava a estratégia, reabria assuntos encerrados e improvisava quando deveria repetir.
Quem não se lembra? Em 2022, Duda tentou suavizar sua imagem com o conceito do “capitão do povo”, enquanto enfrentava atritos com o núcleo familiar e, especialmente, com Carlos Bolsonaro.
A distância para Lula diminuiu do primeiro para o segundo turno, e Jair terminou com 49,10% dos votos válidos. Duda ajudou, mesmo sem jamais ter controlado o candidato.
FATO É: FLÁVIO É MAIS OBEDIENTE.
Mais comedido. Mais treinável, mesmo com suas limitações.
Tem menos força espontânea, por óbvio, mas oferece algo precioso a um estrategista: a possibilidade de seguir uma linha por tempo suficiente para que ela entre na cabeça do eleitor. Será? Eu acho que sim.
Em política, isso vale ouro, meus caros.
Uma campanha não precisa de dez ideias brilhantes por dia. Precisa de duas ou três ideias relevantes repetidas com disciplina durante dois meses. Repetir todo dia. Martelar. Paulo Figueiredo, de quem discordo em muitas coisas, falou sobre isso outro dia.
Menos ideias e mais repetição.
O currículo de Duda Lima ajuda nisso.
Natural de Mogi das Cruzes e farmacêutico de formação, veja só, trabalha há mais de vinte anos com marketing político.
Construiu reputação no ABC paulista, onde comandou campanhas vitoriosas de Orlando Morando, em São Bernardo do Campo, e Paulo Serra, em Santo André. Participou da eleição de Tiririca para deputado federal em 2010, com 1,3 milhão de votos. Vocês sabiam dessa?
Depois vieram a campanha presidencial de Jair e a reeleição de Ricardo Nunes em São Paulo. Meus caros, eleger Ricardo Nunes foi um feito que me impressionou muito.
Sim, o caso Nunes é particularmente útil aqui.
Duda recebeu um prefeito de comunicação fria e baixa intensidade eleitoral.
No caminho havia o brilhante comunicador Pablo Marçal disputando o eleitor da direita e o experiente Guilherme Boulos concentrando a esquerda.
O estrategista apresentou Nunes como “cria da periferia”, organizou sua imagem de gestor e impediu que ele fosse engolido por aliados mais populares. Eu mesmo achei que ele seria atropelado.
E, no final, estava lá: Nunes venceu o segundo turno por 59,35% a 40,65%. Quase 19 pontos de diferença. Um massacre.
O contexto presidencial é diferente, claro, mas o método serve.
Duda sabe proteger um candidato menos magnético, administrar a proximidade com Jair sem entregar a ele todo o espaço da campanha e transformar a rejeição ao adversário em voto útil.
A eleição que interessa
O bom publicitário vai muito além de produzir programas bonitos.
Vou explicar o que estou imaginando.
Se a campanha virar um julgamento permanente sobre Jair Bolsonaro e sua família, Lula será favorecido.
Se a eleição se transformar num julgamento do governo atual, do custo de vida, da criminalidade, da corrupção e de mais um ciclo petista no poder, Flávio entra em campo competitivo. ESSA É A MINHA APOSTA.
A fórmula de Lula em 2022 não vai servir em 2026, porque o eleitor não é bobo. Não cai no mesmo golpe duas vezes seguidas.
Duda terá de preservar o pai como fiador da base e impedir que ele se torne o assunto exclusivo da eleição.
Terá de vender continuidade de valores com mudança de temperamento.
Flávio já ofereceu material ao se definir como um “Bolsonaro mais centrado”, assumir uma agenda econômica liberal e marcar diferenças pessoais em relação ao pai.
Até a declaração de que tomou duas doses de vacina ajuda a construir esse personagem. A base não gosta desse assunto, mas a base vai votar de qualquer jeito.
Kkkk. Esquece. A base? O nome diz tudo.
Veja bem: Duda não precisa apagar Jair. Precisa convencer uma pequena parcela extra do eleitorado de que o filho não repetirá todos os excessos do pai.
Numa disputa em que a diferença aparece entre um e cinco pontos, esse pequeno deslocamento pode decidir o país.
Duda também domina a propaganda de massa. Isso importa num ambiente em que parte da direita confunde engajamento digital com maioria eleitoral.
Um conhecido estudo de Bernardo Silveira e João De Mello, baseado em eleições estaduais brasileiras, encontrou efeito causal relevante da propaganda de rádio e televisão sobre o voto.
Rede social até confirma convicções. Campanha de massa apresenta o candidato a quem não vive dentro da militância. É isso. A diferença de tempo de TV para Lula ficou irrelevante. Ambos têm bons tempos.
Flávio precisa buscar essa diferença. Precisa buscar o eleitor que não vive dentro da militância.
AUTORIDADE PARA COMANDAR.
Claro que Duda Lima não fará milagres.
Os erros continuarão. As escorregadas e os escândalos também. Duda não criará alianças retroativamente, não apagará o áudio envolvendo Vorcaro, não impedirá fatos novos e não conseguirá organizar sozinho uma campanha na qual cada filho, dirigente, coordenador, advogado e influenciador conserve poder de veto.
Mas agora vem o mais importante:
A contratação só terá valor real se vier acompanhada de autoridade. Flávio terá de obedecer.
Essa talvez seja sua maior vantagem sobre o pai como candidato. Flávio parece compreender que recebeu a candidatura pronta, mas não recebeu junto com ela a genialidade eleitoral de Jair. Ele mesmo admite isso.
Por isso, precisa de método, comando, repetição e humildade para ser dirigido.
Escrevi que sua preparação de campanha foi a pior que já vi.
Duda Lima pode transformar sua chegada na primeira decisão realmente profissional dessa candidatura. Até aqui, só amadorismo.
Ele não precisa inventar nenhuma onda. E sabe disso.
O antipetismo já existe. Está aí. É o presentão.
Seu trabalho será ordenar essas forças e impedir que Flávio volte a tentar derrotar a si mesmo.
Duda afirma que marqueteiro nenhum ganha eleição. Em geral, tem razão.
Mas, se Flávio vencer por um ou dois pontos, talvez venhamos a concluir que se abriu uma exceção a essa regra.
NA FOTO, O ESTRATEGISTA E UM CAVALO PRETO NA SUA FRENTE.
Não resisti.



Minha grande dúvida é que, considerando todo o desgaste para se fazer tudo que foi feito contra o Jair, vão deixar um outro da família assumir assim a presidência?
Agora entendi porquê??? Vou votar no Flávio…